Mais Saúde nas
Emoções
É comum
reconhecermos e afirmarmos que perdoar é difícil. Até mesmo diante de
sentimentos como a raiva de alguém, a decepção, uma contrariedade qualquer, nos
parece difícil nos vermos livres rapidamente dos mesmos. Muitas vezes já compreendemos
o por quê daquele fato, da atitude do outro, entendemos seus motivos e achamos até
coerentes, mas abandonar o sentimento que aquilo nos provocou é demorado. Por
que? Por que não deixamos um sentimento que está, muitas vezes, nos fazendo mal
e que já não existe uma razão plausível para cultivá-lo?
Para
compreender esse apego temos primeiro que entender o que esses sentimentos
significam em determinadas situações para nós.
Os
sentimentos, as emoções surgem a partir de um significado que damos para uma
determinada situação, pessoa, fenômeno ou objeto. Por exemplo, ao significarmos
pelo seu aspecto, que alguém na rua é um ladrão, mesmo sem ter certeza, o
sentimento de medo pode surgir e passar a interferir em nosso comportamento,
fazendo-nos atravessar a rua. Ora, quando dou um significado, este passa a ser
uma expressão da minha existência, pois foi formulado por mim, a partir da
minha relação com o outro e o mundo, logo me identifico com ele. Esta
identificação pode ser tão profunda e importante a ponto de fazer com que eu
não consiga separar “significado” do meu “ser”. Como dele decorreu uma emoção,
portanto, estão intimamente vinculados, largar da mesma pode vir a ser
entendido por mim como uma desqualificação do meu ser. Daí o apego que passo a
ter em relação às emoções e sentimentos dos quais quero me ver livre. Quando,
então, conseguimos esta libertação?
Se admitimos
que o medo que temos é o da desqualificação do nosso ser, só iremos abrir mão do
sentimento quando tivermos garantida a qualificação dos mesmos. Ou seja, quando
nos sentirmos qualificados, reconhecidos e valorizados em nossos sentimentos.
Portanto,
temos ai uma chave que poderá nos ajudar em dois sentidos. O primeiro é em
relação às pessoas que se sentirem afetadas negativamente por nosso
comportamento, onde poderemos ajudá-las a se libertarem dos sentimentos ruins
se os reconhecermos, validando-os como legítimos, para posteriores explicações
sobre os significados e intenções que nos levaram a ter tal comportamento. Isto
tudo de forma verdadeira, já que só terá o efeito desejado se chegar ao coração
do outro. Exemplo: se sua mãe ficou chateada porque você a deixou esperando
trinta minutos além do horário combinado de apanhá-la, antes de justificar,
dizendo que o seu carro furou o pneu e que seu celular ficou sem bateria, diga
que imagina o quanto deve ter sido desconfortável para ela ficar todo este
tempo esperando e sem receber notícias suas. Este reconhecimento a ajudará na
libertação dos sentimentos ruins por ela experimentados, criando condições
favoráveis para o entendimento e aceitação das justificativas.
O segundo é
em relação a nós mesmos, pois como sabemos que o que nos faz presa de um
sentimento é nossa necessidade de reconhecimento, valorização, podemos começar
um trabalho interior de ressignificação, buscando reconhecer nosso valor pelo
que somos, sem depender tanto do reconhecimento de outras pessoas. Ou seja,
termos consciência de que se sentimos algo isso é importante porque é nosso,
porque é verdadeiro e legítimo. Mas que não precisamos ficar agarrados a eles
quando não mais fazem sentido e só nos impedem de viver melhor. É ter tais
sentimentos como uma canoa que foi por mim construída quando da época em que
morava à beira do rio e que, ao me mudar para o sertão, devo me desfazer dela,
pois, como canoa, só irá me atrapalhar, sendo um peso morto. Mas não deveria
guardá-la para que os outros vissem que eu a construí? E eu ainda preciso
mostrá-la para os outros para que reconheçam minha competência? Não basta que
eu saiba? Se não, isso pode significar que ainda tenho muito trabalho interior
a fazer.
