Thursday, October 9, 2014


Mais Saúde nas Emoções

É comum reconhecermos e afirmarmos que perdoar é difícil. Até mesmo diante de sentimentos como a raiva de alguém, a decepção, uma contrariedade qualquer, nos parece difícil nos vermos livres rapidamente dos mesmos. Muitas vezes já compreendemos o por quê daquele fato, da atitude do outro, entendemos seus motivos e achamos até coerentes, mas abandonar o sentimento que aquilo nos provocou é demorado. Por que? Por que não deixamos um sentimento que está, muitas vezes, nos fazendo mal e que já não existe uma razão plausível para cultivá-lo?
Para compreender esse apego temos primeiro que entender o que esses sentimentos significam em determinadas situações para nós.
Os sentimentos, as emoções surgem a partir de um significado que damos para uma determinada situação, pessoa, fenômeno ou objeto. Por exemplo, ao significarmos pelo seu aspecto, que alguém na rua é um ladrão, mesmo sem ter certeza, o sentimento de medo pode surgir e passar a interferir em nosso comportamento, fazendo-nos atravessar a rua. Ora, quando dou um significado, este passa a ser uma expressão da minha existência, pois foi formulado por mim, a partir da minha relação com o outro e o mundo, logo me identifico com ele. Esta identificação pode ser tão profunda e importante a ponto de fazer com que eu não consiga separar “significado” do meu “ser”. Como dele decorreu uma emoção, portanto, estão intimamente vinculados, largar da mesma pode vir a ser entendido por mim como uma desqualificação do meu ser. Daí o apego que passo a ter em relação às emoções e sentimentos dos quais quero me ver livre. Quando, então, conseguimos esta libertação?
Se admitimos que o medo que temos é o da desqualificação do nosso ser, só iremos abrir mão do sentimento quando tivermos garantida a qualificação dos mesmos. Ou seja, quando nos sentirmos qualificados, reconhecidos e valorizados em nossos sentimentos.
Portanto, temos ai uma chave que poderá nos ajudar em dois sentidos. O primeiro é em relação às pessoas que se sentirem afetadas negativamente por nosso comportamento, onde poderemos ajudá-las a se libertarem dos sentimentos ruins se os reconhecermos, validando-os como legítimos, para posteriores explicações sobre os significados e intenções que nos levaram a ter tal comportamento. Isto tudo de forma verdadeira, já que só terá o efeito desejado se chegar ao coração do outro. Exemplo: se sua mãe ficou chateada porque você a deixou esperando trinta minutos além do horário combinado de apanhá-la, antes de justificar, dizendo que o seu carro furou o pneu e que seu celular ficou sem bateria, diga que imagina o quanto deve ter sido desconfortável para ela ficar todo este tempo esperando e sem receber notícias suas. Este reconhecimento a ajudará na libertação dos sentimentos ruins por ela experimentados, criando condições favoráveis para o entendimento e aceitação das justificativas.

O segundo é em relação a nós mesmos, pois como sabemos que o que nos faz presa de um sentimento é nossa necessidade de reconhecimento, valorização, podemos começar um trabalho interior de ressignificação, buscando reconhecer nosso valor pelo que somos, sem depender tanto do reconhecimento de outras pessoas. Ou seja, termos consciência de que se sentimos algo isso é importante porque é nosso, porque é verdadeiro e legítimo. Mas que não precisamos ficar agarrados a eles quando não mais fazem sentido e só nos impedem de viver melhor. É ter tais sentimentos como uma canoa que foi por mim construída quando da época em que morava à beira do rio e que, ao me mudar para o sertão, devo me desfazer dela, pois, como canoa, só irá me atrapalhar, sendo um peso morto. Mas não deveria guardá-la para que os outros vissem que eu a construí? E eu ainda preciso mostrá-la para os outros para que reconheçam minha competência? Não basta que eu saiba? Se não, isso pode significar que ainda tenho muito trabalho interior a fazer.

Wednesday, September 18, 2013


“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” 
Pierre Teilhard de Chardin[1]



Esta conhecida frase vem nos relembrar uma dimensão esquecida por nós no cotidiano – nossa espiritualidade. Quando se fala em espiritualidade, em geral, se pensa nas religiões, em templos e cultos. Mas, a espiritualidade está muito além das práticas religiosas, ela pode ser encontrada no nosso dia-a-dia, a partir da visão de que tudo está ligado a tudo e que nós fazemos parte de um todo, vivendo em interação permanente para o crescimento de si e do mundo.
A partir da frase de Chardin também podemos entender que nossa dimensão espiritual deverá ser revelada e exercitada nas experiências humanas, portanto, nas relações do cotidiano com o outro e com o mundo. Muitos acham que para vivermos nossa espiritualidade temos que nos isolar do mundo, buscando lugares na natureza em que fiquemos em paz, em silêncio e contemplação. É claro que vivências nesses ambientes podem nos reabastecer e nos fazer entrar em contato com aspectos transcendentais de nós na relação com a natureza. Outros a reduzem às práticas de sua religião nos templos e ações de solidariedade. Mas, a proposta é de vivermos nossa espiritualidade no lar, no trabalho, na via pública, ou seja, no mundo diário. É de buscarmos a conexão entre o espírito, nossa essência e suas necessidades de transcendência, com nossa natureza humana e suas necessidades materiais, através do aprendizado e da vivência do amor.
Será a partir desse referencial que abordaremos questões da vida diária que nos intrigam e nos desafiam, convidando-nos a reflexões mais profundas.
A primeira que nos salta aos olhos é a desatenção que estamos vivendo. Basta parar um pouco e veremos acontecendo um fenômeno cada vez mais comum – a ausência das pessoas presentes. São pessoas que fisicamente estão ali, a nossa frente, mas cujo espírito, sua atenção e emoção estão conectadas a outras situações ou pessoas. E isso já é tomado de forma normal, dada à frequência com que acontece, ainda mais pela justificativa de que a tecnologia é pra isso. Pode ser comum, mas será saudável?
Para Erich Fromm[2] o amor é traduzido na prática por atenção, ou seja, onde está a nossa atenção aí está o nosso amor. Assim, se nossa atenção está constantemente voltada para outro espaço que não aquele em que meu corpo se encontra, estaremos vivendo um amor virtual, protegido pela distância. Dessa forma, o aprendizado e a expressão de nossa espiritualidade nas relações face à face fica comprometida. Nossas relações vão se superficializando e morrendo, pois sua vida é dada por nossa essência e ela está longe do aqui e agora. É como se estivéssemos com fome e nos conectássemos pelo celular a um site que nos apresenta vários pratos deliciosos, tentando saciá-la. Portanto, o convite que fazemos é o de estarmos com nossa alma onde estamos fisicamente, exercitando o “olho no olho”, dando atenção (nosso amor) àqueles que estão a nossa volta. Assim, estaremos vivendo de forma plena nossas relações, amando e nos sentindo amados.




[1] Padre jesuíta, teólogo e paleontólogo francês (1881-1955)
[2] Erich Fromm, psicanalista alemão, filósofo e sociólogo.