Wednesday, September 18, 2013


“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” 
Pierre Teilhard de Chardin[1]



Esta conhecida frase vem nos relembrar uma dimensão esquecida por nós no cotidiano – nossa espiritualidade. Quando se fala em espiritualidade, em geral, se pensa nas religiões, em templos e cultos. Mas, a espiritualidade está muito além das práticas religiosas, ela pode ser encontrada no nosso dia-a-dia, a partir da visão de que tudo está ligado a tudo e que nós fazemos parte de um todo, vivendo em interação permanente para o crescimento de si e do mundo.
A partir da frase de Chardin também podemos entender que nossa dimensão espiritual deverá ser revelada e exercitada nas experiências humanas, portanto, nas relações do cotidiano com o outro e com o mundo. Muitos acham que para vivermos nossa espiritualidade temos que nos isolar do mundo, buscando lugares na natureza em que fiquemos em paz, em silêncio e contemplação. É claro que vivências nesses ambientes podem nos reabastecer e nos fazer entrar em contato com aspectos transcendentais de nós na relação com a natureza. Outros a reduzem às práticas de sua religião nos templos e ações de solidariedade. Mas, a proposta é de vivermos nossa espiritualidade no lar, no trabalho, na via pública, ou seja, no mundo diário. É de buscarmos a conexão entre o espírito, nossa essência e suas necessidades de transcendência, com nossa natureza humana e suas necessidades materiais, através do aprendizado e da vivência do amor.
Será a partir desse referencial que abordaremos questões da vida diária que nos intrigam e nos desafiam, convidando-nos a reflexões mais profundas.
A primeira que nos salta aos olhos é a desatenção que estamos vivendo. Basta parar um pouco e veremos acontecendo um fenômeno cada vez mais comum – a ausência das pessoas presentes. São pessoas que fisicamente estão ali, a nossa frente, mas cujo espírito, sua atenção e emoção estão conectadas a outras situações ou pessoas. E isso já é tomado de forma normal, dada à frequência com que acontece, ainda mais pela justificativa de que a tecnologia é pra isso. Pode ser comum, mas será saudável?
Para Erich Fromm[2] o amor é traduzido na prática por atenção, ou seja, onde está a nossa atenção aí está o nosso amor. Assim, se nossa atenção está constantemente voltada para outro espaço que não aquele em que meu corpo se encontra, estaremos vivendo um amor virtual, protegido pela distância. Dessa forma, o aprendizado e a expressão de nossa espiritualidade nas relações face à face fica comprometida. Nossas relações vão se superficializando e morrendo, pois sua vida é dada por nossa essência e ela está longe do aqui e agora. É como se estivéssemos com fome e nos conectássemos pelo celular a um site que nos apresenta vários pratos deliciosos, tentando saciá-la. Portanto, o convite que fazemos é o de estarmos com nossa alma onde estamos fisicamente, exercitando o “olho no olho”, dando atenção (nosso amor) àqueles que estão a nossa volta. Assim, estaremos vivendo de forma plena nossas relações, amando e nos sentindo amados.




[1] Padre jesuíta, teólogo e paleontólogo francês (1881-1955)
[2] Erich Fromm, psicanalista alemão, filósofo e sociólogo.